DINO E O ENCANTAMENTO DOS PÁSSAROS

Dino era um homem de uma bondade inexplicável.  Até os pássaros sentiam isso. Todas as manhãs, antes do seu café matinal, fazia questão de primeiro alimentar os pássaros que costumavam pernoitar nas árvores que havia ao redor de sua residência. E fazia com um grande prazer. Até estas pequenas criaturas sentiam isto.

-Não queres antes teu café? – perguntava Elisa, sua grande companheira e fiel parceira de 50 anos de enlace.

– Não, primeiro as crianças – respondia Dino já indo em direção ao pátio onde sabia que estavam seus amigos de asas.

Depois da sua primeira refeição, vestia-se como um cavalheiro porque pretendia atender muito bem os clientes que aparecessem naquele dia em sua loja de jóias, relógios e óculos.

-Bom dia, gente boa! Vamos trabalhar!

E o bom dia de todos os funcionários daquela loja ganhava um sabor de amor, de carinho e de respeito.

Os clientes chegavam a todo instante. E o atendimento dos funcionários era tipo Dino, ou seja, inexplicável. Porém, muitos clientes queriam o toque final dele nos óculos, na escolha das joias ou relógios que estavam adquirindo naquele instante para uma noiva, uma mãe, uma irmã ou para eles próprios.

Particularmente, nunca vi Dino triste ou preocupado.

Era um homem íntegro que conseguira encaminhar seus três filhos na profissão que cada um escolheu. Um deles formou-se em Direito, outro em Administração e a filha entrou para o mundo da arte. E era tão artista quanto seu pai quando chegava naquela loja.

Frequentemente Dino fazia questão de colocar as telas que ela pintava entremeio às joias, para que fossem admiradas e contempladas pelos clientes, amigos ou passantes. Isto porque as telas possuíam uma beleza inexplicável, assim como as joias.

Naquela noite já havia fechado a loja e estava cansado. Muitos foram os clientes com quem conversara durante o dia. Elisa fez o jantar. Jantaram. Permaneceram um tempo conversando antes de se recolherem. Mas Dino recolheu-se antes porque a fadiga havia tomado conta de seu corpo e seu espírito.

-Não queres deitar agora, Elisa?

-Não, Dino, ainda tenho umas coisas para terminar.

Além de cuidar do conserto de joias que eram adquiridas por clientes na loja, Elisa também cuidava dos serviços domésticos. Tinha uma ajudante durante o dia, porém à noite cabia a ela concluir os pequenos afazeres.

Assim que se deitou – Dino já estava em seu sono profundo -, Elisa escutou vozes altas e imediatamente sentiu uma arma apontada para sua cabeça. Em alguns segundos, outros três jovens, também portando armas, entraram no quarto onde Dino estava.

O filho dele, que morava numa casa ao lado, escutou os gritos e correu porque sabia que eles estavam precisando de ajuda. Assim que entrou naquele quarto onde estavam os assaltantes e seus pais, um deles bateu com muita força e brutalidade na sua cabeça, provocando nele uma queda brusca.

– Não, por favor, deixem meu filho vivo! – gritava Dino já amarrado por um dos assaltantes.

– Queremos joias, só joias, porque sabemos que o senhor tem muitas joias – disse um deles.

E levaram todo tipo e espécie de joia que Dino e Elisa possuíam no cofre de sua casa.

Na manhã seguinte ele não compareceu em sua loja, porque ainda estava assustado com o que havia acontecido. Mas Tom foi cedo avisar todos os funcionários.

A partir daquele dia Dino estava diferente quando conseguia ir até a loja. O seu bom dia estava um pouco sem sabor. Mas tinha um gostinho de desgosto por tudo aquilo que havia passado nas mãos dos assaltantes. Os pássaros? Sim, também sentiram a ausência de Dino no início das manhãs. Mas compreenderam e esperaram. A dor daquela noite haveria de passar e os seus alimentos, todas as manhãs, haveria de continuar.

– O que o senhor tem, meu pai? Cansado ou preocupado? – perguntava Tom quando encontrava com Dino atendendo na loja um tanto tristonho.

– Estou bem, não se preocupe – respondia sempre assim.

Aos poucos, Tom, sob os conselhos do pai, desfez-se de uma outra loja da família, na capital do estado, vindo ajudá-lo na loja da cidade onde moravam. Compreendeu que o mais importante agora era ver seu pai (que estivera amarrado e sob a mira de arma de fogo) ainda com vida e trabalhando na loja.

Naquela tarde Dino não estava bem. Concluiu um atendimento de uma senhora, experimentando nela seus novos óculos e sempre com aquele sorriso, mas não estava muito bem. Faltava ainda uma hora para encerrar o expediente, mas retirou-se da sala de atendimento, subiu para o escritório da loja e optou por deitar naquele sofá que recebia os revendedores de joias, relógios ou óculos.

– Pai, o que o senhor tem? Quer que eu o leve a um médico? – perguntou Tom preocupado com o estado que via estar seu pai, seu grande companheiro, parceiro de trabalho e, além disso, seu principal professor no mundo dos negócios.

– Não filho, deixe-me descansar um pouco – respondeu Dino com ar de cansaço e dor.

Mas não aguentou. Quando Tom percebeu, Dino vomitava sangue. Correu com ele para o primeiro hospital que havia na cidade.

Para todos os funcionários, o que estava acontecendo com Dino, além de ser preocupante, era motivo de sofrimento também. Todos sofriam juntamente com ele, afinal quem tivera sido ele em todos os anos de trabalho naquela joalheria e ótica? Um pai, um grande amigo, um companheiro de todos os funcionários ou clientes.

Quando os médicos que o haviam socorrido naquele pequeno hospital avisaram Tom que tudo estava amenizado no corpo de Dino, ele avisou seus outros dois irmãos sobre o que havia acontecido com seu pai e entrou em contato com um outro hospital maior noutra cidade e para lá foi  levado Dino.

– Pai, você vai melhorar. Precisamos do senhor na loja – dizia Tom sempre tentando reanimá-lo.

– Eu sei que vou ficar bom. Não se preocupe, filho. Cuide da loja enquanto eu não estiver nela.

Já haviam chegado no outro hospital e foram recebidos por uma equipe grande de médicos que o aguardavam. Lá foi Dino para diversos exames.

Por vários dias permaneceu naquele hospital, mas Tom observava, quando visitava Dino, que a janela do quarto onde havia sido internado seu pai, todos os dias recebia visitas diferentes.

Naquela tarde, três médicos entraram no quarto do hospital e imediatamente colocaram Tom a par do que estava acontecendo com seu pai.

– Sim, infelizmente nada mais podemos fazer – disse Dr.Ricardo, oncologista daquele hospital que havia recebido Dino com muita atenção, carinho e dedicação.

Assim que saíram do quarto, quase final da tarde, Dino olhou para o lado e fechou os olhos.

Conta Tom que a janela do quarto, naquela hora, ficara ainda mais irradiada de visitas. E desta vez eles, os pequenos amigos de Dino, os pássaros chegavam, pousavam na janela, saiam. Apenas isto. Nenhum canto. Isto porque o bando era enorme e todos pretendiam ver seu grande amigo do início de todas as manhãs pela última vez.

E até que os médicos não retirassem o corpo de Dino daquele lugar, sempre houve pássaros na janela daquele quarto.

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